Partos domiciliares despencam na Holanda, mostra Fernando Maia

29/03/2019


Principal exemplo de país que adotou em seu sistema público de saúde o parto domiciliar no mundo, a Holanda vem reduzindo substancialmente os percentuais de partos domiciliares realizados na última década, demonstrou Fernando Maia, membro do Grupo de Trabalho Materno Infantil do CREMERJ, durante o Simpósio “Parto e Aborto – Discussão de Temas Polêmicos”, nesta sexta-feira (29).

De acordo com dados apresentados por Maia, o número de gestantes que escolhem dar à luz em casa, na Holanda, caiu consideravelmente, de 29% entre 2005 e 2007, para apenas 13% em 2016. Ele citou ainda o Reino Unido, onde – embora estimulado pelo sistema de saúde público – é responsável por apenas 1 em cada 50 casos.

O conselheiro Raphael Câmara, organizador do evento, lembrou que as resoluções 265 e 266 do CREMERJ proíbem a participação de médicos em partos domiciliares no Rio de Janeiro. “O Conselho é a favor do parto hospitalar e realizado por médico, com segurança e respeitando a autonomia da paciente se possível.”

No Rio de Janeiro, o parto domiciliar correspondeu a apenas 0,35% do total, em 2016. “Mesmo sendo um número muito pequeno, devemos discutir o parto domiciliar porque, pelas pesquisas apresentadas, é preferido por mulheres de alta escolaridade, formadoras de opinião. Talvez essa seja uma antecipação de uma tendência a ser observada”, explicou o médico.

Para Maia, não é “razoável” um médico “correr o risco de fazer partos domiciliares” no Brasil, onde não há previsão de assistência em domicílio. “Não consigo entender como médicos se colocam na situação de se ter uma complicação – ainda que possa ser rara – em um lugar onde não se tem quase nada a fazer”.

Antonio Braga apresenta história da cesariana no país

O também membro do Grupo de Trabalho Materno Infantil do CREMERJ Antonio Braga afirmou que o parto caminha “para a simplificação”, como dizia o médico Fernando Magalhães, precursor da prática no Brasil. “Parto normal adequado quando for fácil, e parto artificial quando for difícil. Temos visto uma tendência à cesariana nos convênios e do parto normal no SUS. No entanto é preciso garantir que tanto a mulher atendida na rede pública tenha sua autonomia respeitada e possa fazer um parto normal, quanto que a mulher atendida na rede pública possa fazer uma cesária”, disse.

Braga apresentou a história da cesariana com suas implicações e polêmicas, desde quando a prática era criminalizada, no século 16, até os dias de hoje. Braga destacou a importância do médico Fernando de Magalhães, que trouxe a prática como a conhecemos hoje para a Casa Rosa de Laranjeiras. Nos anos 1970, houve um crescimento grande no número de cirurgias cesarianas, chegando em 2009 a mais da metade dos partos realizados no Brasil.