Prefeitura fecha dois serviços de hospital em Curicica

06/04/2013


Parece mentira, mas não é. Os serviços de ginecologia e cirurgia geral do Hospital Municipal Raphael de Paula Souza (HMRPS), em Curicica – municipalizado em 2000 –, foram fechados no dia 1º de abril. Em reunião com o CREMERJ nesta sexta-feira, 5, o corpo clínico da unidade relatou que não foi avisado sobre o fechamento e só percebeu a situação porque nenhum paciente chegou para ser atendido na última segunda-feira. A população também se surpreendeu, no mesmo dia, com o cancelamento das consultas. Os médicos foram realocados em outras unidades de saúde.

Os setores de ginecologia e cirurgia geral passavam por problemas, principalmente, com a falta de recursos humanos, assim como todo o hospital, com destaque para a carência de anestesistas. A ginecologia, em 2000, realizava cerca de 15 mil atendimentos ambulatoriais e 700 cirurgias por ano. Entretanto, com a escassez de provimentos, esse setor começou a ser prejudicado e reduziu-se por mais da metade a sua capacidade.

Já o departamento de cirurgia geral realizava procedimentos de baixa complexidade, como operações de hérnias e vesículas. Por normalmente não tratarem-se de casos graves, não havia problemas com a falta de leitos – no total, havia dez para a cirurgia geral –,pois os pacientes costumavam receber alta no dia seguinte à internação. Por ano, o setor realizava cerca de 700 cirurgias de vesículas. Para não prejudicar ainda mais o andamento dos procedimentos com a falta de anestesistas, os médicos pediram, ao menos, cinco especialistas para a Secretaria Municipal de Saúde.

Com desativação dos serviços, a tendência, segundo o corpo clínico, é sobrecarregar outros hospitais. Um dos diferenciais do HMRSP era não ter filas de espera para operar os pacientes. De acordo com eles, a função desse setor era a de desafogar os hospitais federais, responsáveis pelos procedimentos de alta e média complexidade.

Agora, os médicos temem que todo o hospital seja desativado. Para o corpo clínico, a unidade, com 45 leitos, é responsável pelo atendimento ambulatorial de cerca de seis mil pacientes, além de pessoas com imunodeficiência por terem câncer ou serem portadoras do HIV. O fechamento dos setores de ginecologia e cirurgia geral também prejudicou a residência médica do hospital, já que todos foram transferidos, sem aviso prévio, para outras unidades de saúde.

“É mais um exemplo do descaso com a saúde pública. A falta de recursos humanos é um problema generalizado que não se resolve com o fechamento de serviços, mas sim com a contratação de médicos com salários dignos. Eles querem privatizar a saúde, o que é um absurdo”, afirmou Pablo Vazquez, coordenador da Comissão de Saúde Pública do CREMERJ.

A representante da Câmara Técnica de Pneumologia e Cirurgia Torácica, Magareth Dalcolmo, diretora do hospital de Curicica na década de 80, também lamentou o fechamento dos serviços.

“Na época, investimos na pediatria, construímos a maternidade, que foi referência durante anos, além de outras implantações. Agora, temos que saber qual será o futuro do hospital. Será que é planejamento da prefeitura desativar tudo? Precisamos de uma resposta”, disse.

Com base no relato dos médicos do HMRPS, o CREMERJ irá convidar o secretário municipal de Saúde do Rio de Janeiro, Hans Dohmann, e a atual direção do hospital para dar explicações sobre o caso. Os médicos também irão protestar no domingo, 7 – Dia Mundial da Saúde –, pela valorização da profissão de medicina.

“Não só os médicos, mas a população também precisa de uma resposta. Temos que nos unir para exigir melhorias na nossa profissão e uma prestação de serviço mais qualificada para a sociedade, o que, com equipes incompletas, falta de insumos e de infraestrutura, não é possível. Fechar o serviço não é a solução. Estaremos domingo, às 10h, na Praia de Copacabana, para mostrar para o Rio que a culpa de todo esse caos é do poder público”, declarou a presidente do CREMERJ, Márcia Rosa de Araujo.

Participaram ainda da reunião os conselheiros Sidnei Ferreira, Nelson Nahon, Luís Fernando Moraes, Marília de Abreu, Erika Reis, Armindo Fernando da Costa, Marcos Botelho e Aloísio Tibiriçá – que também é vice-presidente do Conselho Federal de Medicina.