Na Mídia - Sem sair de casa, idosos têm dificuldade para obter remédio

O Estado de São Paulo /

01/04/2020


Envio de receita pelos Correios e atendimento médico a distância são alternativas para 

A professora aposentada Therezinha Pontes, de 84 anos, vem perdendo o sono há duas semanas. E não só pelo temor com a epidemia de covid-19. O remédio que costuma tomar todas as noites para adormecer acabou. Em meio às medidas de distanciamento social, ela não consegue uma receita azul para repor o estoque. "Tomo esse remédio há dois anos e estou sem poder comprar", explicou. "Tenho a receita original, mas não a azul, e as farmácias não aceitam. Meu médico não está atendendo, disse que está sem receitas em casa e não tem como sair. Não sei o que fazer."

Situação semelhante é enfrentada pela aposentada Maria Coeli Pontes, de 80 anos, que faz tratamento com antidepressivos. "Tomo esse remédio há 20 anos, não posso parar de tomar agora, ainda mais num momento desses", afirmou. "Tento ligar para a minha médica, mas ninguém atende no consultório; mandei WhatsApp para a secretária, e ela também não respondeu. Liguei para o plano de saúde, e eles dizem que tenho de procurar outro médico. Mas não é para ficar em casa?"

O caso delas é recorrente neste momento em que o avanço do coronavírus traz uma preocupação a mais aos idosos com doenças crônicas, que precisam de receitas controladas para comprar medicamentos de uso contínuo. Normalmente, esse tipo de remédio somente é vendido ao paciente, no máximo, até 30 dias após a emissão da receita médica e uma de suas vias fica retida nas farmácias. No entanto, diante do confinamento e cancelamento temporário de consultas, entidades defendem a adoção de medidas que facilitem a compra dos remédios. A situação se agrava no caso dos idosos, que devem evitar sair às ruas.

Opções. Uma alternativa é entrar em contato com o médico. "O paciente atualmente está solicitando a receita ao seu médico, que tem enviado pelo correio, motoboy ou pedido a retirada do documento por pessoa próxima. Tem sido uma prática comum", disse Carlos André Uehara, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).

Outra saída é procurar atendimento médico a distância. "Durante a pandemia, o idoso pode fazer atendimento por telemedicina. Se o médico se sentir à vontade, pode prescrever a receita e combinar uma forma de entrega. No entanto, em muitos casos, a prescrição da receita depende de uma primeira consulta presencial para que o médico possa conhecer o paciente. É importante ainda buscar informação nos conselhos de Medicina para verificar se o responsável está devidamente cadastrado", afirmou Uehara.

O presidente do Conselho Regional de Medicina, Sylvio Provenzano, disse que está ciente das dificuldades dos pacientes. Segundo ele, os próprios médicos têm dificuldade para conseguir novos receituários, uma vez que as gráficas estão fechadas. "É um contrassenso fazer com que essas pessoas se desloquem para conseguir uma receita", diz. "Mas a partir desta quarta, em nosso site, vamos ofertar a receita branca assinada digitalmente pelo médico. No máximo até quinta-feira, teremos a receita azul também."

PERGUNTAS e RESPOSTAS Norma altera prescrição

1. É possível aumentar a quantidade de medicamento prescrita?

Resolução da Anvisa de 24 de março altera temporariamente as regras para prescrição e dispensação de medicamentos controlados. A resolução inclui o aumento da quantidade permitida em receita de controle especial emitida antes da data de entrada em vigor da norma, mas dentro do prazo de validade, para mais 30 dias de tratamento, além do que foi prescrito. Se a data de emissão da receita for a partir de 24 de março, será permitido comprar remédio para tratamento entre três e seis meses, dependendo do tipo de medicamento.

2. E a entrega de remédio controlado em casa?

Temporariamente também está permitida. A pessoa precisa ligar para a farmácia e verificar se há a possibilidade de fazer o cadastro e solicitar a retirada da receita controlada, no momento da entrega do medicamento em casa.

3. E as receitas que estão vencidas?

Algumas redes de saúde pública já estão aceitando receitas vencidas, mas as farmácias particulares ainda aguardam decisão. Vale lembrar que no caso da receita ter vencido há muito tempo ou o paciente não tê-la, deverá entrar em contato com seu médico ou outro credenciado para solicitar guia atualizada.