Empreendedorismo como alternativa para médicos jovens

15/10/2019


Deixar o estetoscópio para dedicar-se a um negócio ou projeto pode assustar alguns profissionais. No entanto, tal decisão pode trazer bons resultados. É o que conta Fernando Cabonieri, de 35 anos, médico que queria ser cirurgião, mas que de repente se viu trabalhando com Comunicação ao criar o portal Academia Médica, que une informação e saúde. Ele conta que, antes de se apaixonar pela comunicação e começar a empreender, trabalhou como instrumentador cirúrgico e ainda na faculdade fez iniciação científica na criação de dispositivos médicos. Após a formatura, seus primeiros cinco anos de carreira foram como médico de pronto-socorro e no ensino para acadêmicos.

“Escolhi Medicina porque queria ajudar as pessoas. Logo, fui trabalhar num centro cirúrgico e com a minha experiência nesta área, percebi que o universo da saúde era maior do que o conteúdo dado aos estudantes nas faculdades”, conta.

O portal foi criado em 2012, com o intuito de acabar essa defasagem. O conteúdo é feito por colaboradores de dentro e fora do país. Inclui médicos, advogados, jornalistas, enfermeiros, pacientes e profissionais da indústria da saúde. Em 2013, com o site em pleno desenvolvimento, Fernando se formou e optou por não cursar residência médica, focando todo seu empenho no site.

“Empreender é algo difícil. O segredo consiste em achar um modelo de negócios que funcione com o que você faz e não desistir. Demorei quatro anos e meio para fazer meu site ser sustentável financeiramente. Mesmo nos momentos mais críticos não deixei de acreditar no potencial do projeto”, relata.

Com a consolidação do site, Carbonieri está há dois anos fora da assistência. Agora atua como conselheiro em quatro empresas com abordagens digitais na área da saúde e coordena uma equipe com sete funcionários. Ele conta que passa a maior parte do tempo no desenvolvimento do portal e diz se sentir realizado.

“Tive a oportunidade de aprender coisas novas, principalmente ao auxiliar nos problemas do dia a dia de outros profissionais. Consegui mostrar que, devolvendo a criatividade nos ambientes de trabalho, a Medicina pode ser maior do que eles imaginam. A sensação de cooperar para o crescimento profissional de outra pessoa é gratificante”, afirma Fernando ao CREMERJ em Revista.

Em Santa Catarina, o médico Fernão Bittencourt, de 38 anos, empenhou um trabalho empreendedor ao realizar mudanças no Hospital São Francisco de Assis (HSFA). Presenciar, diariamente, a rotina da unidade o levou a cursar MBA em Gestão de Saúde.

“Ter este título no currículo me possibilitou desenvolver habilidades necessárias para execução de ideias. A princípio, pensei em fazer residência em cirurgia geral, mas hoje vejo que a minha especialização foi fundamental para o trabalho que desenvolvi como diretor técnico”, diz.

Tudo o que aprendeu na área de gestão, aplicou para melhorar a assistência da população e para assegurar condições dignas de trabalho a todos os profissionais de saúde. O HFSA é uma instituição filantrópico-privada que realiza 60% de seus atendimentos para o SUS. Durante uma forte crise, em 2013, chegou a fechar as portas. Fernão conta que assumiu riscos e desafios e os resultados foram significativos. Hoje, o hospital está com mais profissionais que antes e teve sua infraestrutura ampliada para melhor atender aos pacientes.

“É preciso pensar a Medicina para além da residência e afastar a frieza administrativa das gestões hospitalares. E isto só é possível com mais médicos tornando-se gestores. Desta forma, podemos mudar a realidade nas unidades, além de mobilizar toda a categoria na busca pela dignidade profissional e a se organizar cada vez mais por melhores condições”, afirma.

Na mesma corrente de expansão da Medicina com outras áreas do mercado de trabalho surgiu o portal PEBmed e os aplicativos WHITEBOOK e NURSEBOOK. Ambos desenvolvidos por três médicos formados pela Universidade Federal Fluminense (UFF).  Segundo conta o co-fundador e CEO, Bruno Lagoeiro, de 32 anos, as iniciativas nasceram para auxiliar no dia a dia dos profissionais.

“Tanto o portal quanto os aplicativos foram criados para ajudar o médico e demais agentes de saúde na tomada de decisão clínica. Acreditamos que é possível criar ferramentas eficazes que transformem a rotina assistencial”, declara.

Ao entrarem neste universo, um dos maiores desafios enfrentados pelo grupo foi a responsabilidade com os dados dos usuários. Além disso, o projeto funciona em modelo de assinatura e conta com mais de 100 mil usuários. Para gerir os projetos, eles possuem um time de 50 pessoas no escritório e outros 30 médicos trabalhando em tempo parcial.

Com espaço para expansão, a comunicação digital surge como meio para novas narrativas e formas de disseminar conhecimento. O anestesista Carlos Eduardo Martins, de 39 anos, apostou nas redes sociais, criando a página “Crônicas de Anestesia”, no Instagram. Conhecido como Caê Martins, suas ilustrações apresentam o cotidiano dos médicos da área.

A página tem um público de mais de 19 mil seguidores atingindo um público ainda maior. O médico afirma que nunca fez curso de desenho, mas que sempre gostou da arte.

“Comecei antes de 2007, mas após o término da residência deixei o projeto de lado e só consegui retornar em 2012. Nessa época, já existia o Instagram e passei a divulgar minhas artes lá”,comenta.

Para o recém-formado que ainda está na busca por novas experiências, os relatos acima são uma fonte de inspiração. Empreender é a oportunidade fazer novas e diferentes atividades dentro de sua área de atuação. É a possibilidade de tornar a prática médica uma experiência ainda mais especial. Na opinião de Fernão, para empreender não existe fórmula mágica.

“Muito se sabe sobre a realidade do médico nas unidades de saúde, mas pouco é feito para mudar essa realidade. Ao médico cabe sair da zona de conforto e buscar por soluções, sendo necessário empreender. Usar a nossa criatividade e habilidades para ir além”, finaliza.