Na Mídia - Especialistas e poder público dizem que RJ não suportará alta demanda de casos

Folha de São Paulo /

13/03/2020


A crise da saúde que adoece o Rio de Janeiro há cerca de cinco anos deve dificultar o combate ao coronavírus. O tratamento dos infectados, por sua vez, deve pressionar uma rede que já tem dificuldade de absorvera demandada população.

A avaliação é de médicos que acompanham há tempos a rede pública. Eles afirmam que, apesar de o estado ter bom plano, na prática é provável que faltem leitos, profissionais e insumos com o avanço da nova doença —até agora são 16 casos confirmados.

O próprio secretário estadual de Saúde, Edmar Santos, e o Saúde, Luiz Henrique Mandetta, admitem ver problemas na estrutura fluminense. “A gente sabe as fragilidades do Rio [...]. O Rio tem que construir uma grande capilaridade de acessoà atenção primária e média ”, disse o ministro em visita à capital nesta quinta, ao lado do prefeito Marcelo Crivella.

Já o secretário afirmou que o estado tem mais leitos de terapia intensiva que a Itália, porém ocupados: “Nossa rede será muito sacrificada. O que agente tem de estrutura hoje não nos dará uma situação confortável ”, declarou em entrevista aosite G1. A Folha pediu entrevista com Santos, mas não obteve resposta.

Apesar de aprovar o plano de contingência estadual, o médico Flavio de Sá, diretor do Cremerj (Conselho Regional de Medicina do RJ), diz que as redes pública e privada não comportarão enxurrada de casos. “Hoje não tem infraestrutura estabelecida no Rio para aumento de demanda na escala italiana. O governo não se preparou, e montar isso num curto espaço de tempo exigirá trabalho hercúleo das autoridades para recompor estruturas sucateadas”, diz.

A crise na saúde do Rio atinge as três esferas. Na municipal, há carência de profissionais e de insumos. No âmbito estadual, a situação já está mais controlada, mas há superlotação. E, na rede federal, a União chegou a enviar militares no ano passado para dar um “choque de gestão”.

O déficit de leitos é problema histórico. Segundo a Defensoria Pública da União, o RJ foi o estado que mais perdeu leitos em todo o país nos últimos seis anos, de 27 mil para 21 mil (queda de 22%).

Com o segundo maior número de casos do país, o Rio passou nesta quinta para o “nível 1” de alerta da doença, que prevê medidas no caso de transmissão local. Um casal de idosos que não viajou nem teve contato com doentes que viajaram para o exterior teve resultado positivo para o vírus.

Nesse estágio, o plano de contenção estadual prevê a criação de 206 leitos exclusivos para casos graves. Segundo o secretário, que prevê de 4.000 a 10 mil casos no RJ, serão inauguradas 300 vagas nos próximos dois meses.

Ainda é difícil precisar qual será a quantidade de leitos necessários. Isso porque o comportamento do vírus no Brasil continua incerto. “Existem muitas incógnitas quanto ao ritmo da disseminação da doença, com nossas características geográficas e de temperatura”, diz Flavio de Sá.

Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 80% dos infectados pelo coronavírus não têm complicações e, dentro dos 20% que apresentam dificuldades respiratórias, 3% precisam de leitos de UTI.

A ideia é que essas pessoas entrem no sistema de saúde pela rede básica, como clínicas da família e UBSs municipais de seus bairros, para não sobrecarregar os hospitais. O problema é que esse é um dos principais gargalos do estado.

“A crise na atenção primária vai afetar muito, pois é ali que 80% dos casos serão atendidos e resolvidos e que a necessidade de internação será identificada. É a porta de entrada dos pacientes”, diz Roberto Medronho, professor de epidemiologia da UFRJ que tem sido consultado pelo poder público.

A saúde básica vive reestruturação feita por Crivella. Esse sistema é em grande parte gerido por OSs (organizações sociais). Desde 2017, o prefeito extinguiu equipes de saúde da família dizendo que seu antecessor, Eduardo Paes (DEM), expandiu a rede de forma desordenada. Funcionários, porém, sustentam que tem ocorrido desestruturação do setor.

Na segunda (9), a Defensoria Pública e o Ministério Público fluminenses solicitaram à Justiça que a prefeitura preenchesse déficit de mais de 2.500 profissionais de saúde após a transferência da gestão de 80 unidades para outra OS.

“Não tem infraestrutura no Rio para aumento de demanda na escala italiana. O governo não se preparou, e montar isso em curto espaço de tempo exigirá trabalho hercúleo das autoridades para recompor estruturas sucateadas", Flavio de Sá diretor do Cremerj. 

enças do país.

Até esta quinta (12), mais de 127 mil pessoas já foram diagnosticadas a doença causada pelo vírus, e o número de mortes já passou de 4.700.