Na Mídia - Fila em clínicas do Rio deve durar mais uma semana, mesmo após pagamentos

Folha de São Paulo /

14/12/2019


Mesmo com a liberação do pagamento dos salários atrasados dos funcionários da saúde nesta sexta (13), a crise nas unidades municipais do Rio de Janeiro deve continuar por pelo menos mais uma semana, diante da demanda reprimida, segundo servidores dos locais afetados.

"Tenho uma consulta marcada para o dia 17, mas me avisaram para ligar antes. Não garantiram o atendimento”, contou Priscila de Jesus, 28, grávida de seis meses, que esteve na manhã desta sexta na clínica da família Dr. Felippe Cardoso, na Penha, zona norte.

Ela foi à unidade para fazer uma ultrassonografia, mas continua sem saber o sexo e as condições do bebê. “Vou ter que pagar pelo exame.”

O atendimento prestado no local e nas demais clínicas está praticamente suspenso desde a terça-feira (10).

Na quinta (12), o TRT (Tribunal Regional do Trabalho) da ia Região determinou novo bloqueio judicial em contado município, no valor de R$ 300 milhões, visando o pagamento de salários atrasados e do 13º de profissionais da saúde.

A gestão Crivella quitou nesta sexta o valor atrasado às OSs (organizações sociais), que estão depositando os salários na conta bancária dos funcionários. Nem todos, porém, suspenderam a paralisação.

Apesar de não serem de urgência, as clínicas de família prestam serviço primário fundamental para que os casos não se agravem e os pacientes não parem em hospitais.

Por conta dessa demanda não atendida, o próprio Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj) acredita que a situação nos próximos dias ainda possa se agravar.

"O Cremerj acredita que pode haver um colapso na assistência ainda mais grave caso o atendimento em toda a rede, principalmente na atenção primária, não seja normalizado em pouco tempo”, declarou o presidente da entidade, Sylvio Provenzano.

Na Dr. Felippe Cardoso, uma aposentada de 56 anos que se identificou apenas como Ana procurou pelo remédio para o tratamento da epilepsia e não conseguiu levá-lo para casa. “Sofro de crises convulsivas e não posso ficar sem o medicamento”, lamentou.

Outro caso foi o do vigilante Jonas de Lima, 39, que sofreu uma crise hipertensa na quinta. Ele foi encaminhado para acompanhamento na clínica, mas não conseguiu ver nem sequer a cara do médico.

"Minha pressão foi a 25 por 19 e o medicamento que recebi na urgência está acabando. Sei que é uma covardia ficar sem receber o salário, mas a população é que é prejudicada.”

Os funcionários da clínica disseram que não poderíam dar entrevista, mas afirmaram que não havia previsão de quando o atendimento seria normalizado. Segundo alguns profissionais, mesmo que a greve acabe até a segunda (16), a semana que vem ainda será de transtornos.

Um reflexo da crise na rede pôde ser percebido na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) de Manguinhos, também na zona norte. A unidade estava lotada nesta sexta, com muitos pacientes vindos de outros postos.

O aposentado Valmir Santos Silva, 69, desistiu depois de avaliar o longo tempo de espera. "Estive antes em duas clínicas e não consegui ser atendido. Sou hipertenso e diabético e me senti mal, mas prefiro ir para casa.”

Guilherme da Silva, 25, que trabalha como descarregador, esperou cinco horas, mas foi atendido no local. “Não aguentava mais de dor e preferi aguardar aqui mesmo.”

A Secretaria Municipal de Saúde não se pronunciou sobre os reflexos da paralisação nem deu prazo para o fim da crise. Em nota, afirmou que “todas as OSs já receberam o repasse e os salários estão sendo pagos ao longo do dia”.