Na Mídia - No Dia do Médico, relatos de quem enfrenta a violência do Rio para exercer a profissão

O Globo Online /

18/10/2019


Profissionais da saúde também enfrentam instalações precárias e falta de materiais

RIO - A médica Maria (nome fictício) trabalha em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) localizada numa região conflagrada pelo tráfico, na Zona Norte do Rio. Em três anos, ela já perdeu as contas das vezes em que precisou de abrigo durante tiroteios ou deixou de trabalhar por causa de operações policiais. Mas Maria segue apostando em cuidar dos outros. Nessas regiões, a rotina de médicos, de luta pela vida, tem um sentido ampliado. E só sobrevive na profissão, celebrada neste 18 de outubro, quem enfrenta as adversidades e até o risco de morte. Além dos desafios diários, de instalações precárias e falta de materiais, muitos trabalham em áreas invadidas pela violência, como "médicos sem fronteiras" mesmo sem sair do país.

- Ser médico é apaixonante. Mas o amor à medicina luta, todos os dias, contra as dificuldades enfrentadas. Nós trabalhamos sempre no limite da profissão, com falta de insumos e de materiais e salários atrasados. Como se já não bastasse, ainda temos que nos acostumar a trabalhar em meio à linha de tiro, sob o medo de ter a unidade invadida por criminosos sempre que há tiroteios na região, o que acontece quase todo dia - diz a doutora Maria.

Segundo ela, o desânimo, todo dia, precisa ser superado pelo orgulho de exercer a medicina:

- Saio de casa por amor ao que faço. Nasci para isso, salvar vidas. E não abro mão por nada.

O infectologista Rafael Sacramento atua na organização internacional Médicos sem Fronteiras, que leva cuidados de saúde a pessoas afetadas por crises humanitárias, e garante: dentro do programa, já atuou em contextos mais seguros do que os do Brasil.

- Considero a realidade nos países em que passei mais segura que no meu país. Estou pela terceira vez em Moçambique, na África. Existem algumas regras de segurança, mas que não se comparam com o risco que se vive no Rio de Janeiro - afirma ele, que esteve também no Quirguistão, país da Ásia Central.

Outro médico que atua em área de conflito na Zona Oeste do Rio descreve como as adversidades e a violência deixam em evidência o que há de mais humano na relação médico-paciente.

- Há pacientes que conhecemos de nome, dizem que a UPA é a salvação, que bem ou mal tem médicos. Nos momentos mais tensos, como tiroteios, por exemplo, a união entre cidadãos se faz maior que tudo, sejam acompanhantes, funcionários ou pacientes. Nós nos abrigamos, independente de classe social, cor ou religião. Nós pedimos a Deus que aquele momento passe o mais breve possível - lembra.

Mesmo acuados, eles não desistem

No Dia do Médico do ano passado, profissionais da UPA de Costa Barros, uma das regiões mais violentas do Rio, viveram momentos de pânico. Um traficante invadiu o local e quis levar uma médica para atender um criminoso baleado. Acuados, todos os profissionais fugiram, e a UPA foi fechada. Houve uma delicada negociação da médica, que conseguiu convencer os criminosos e não ir. De acordo com um profissional que não quis se identificar, episódios como esse ocorrem em outras unidades.

- Os momentos de perigo são constantes. Já tivemos criminosos armados invadindo a unidade, ambulâncias deixando de sair por conta de confrontos entre os bandidos. E isso coloca, além das nossas, a vida dos pacientes em risco. Há casos, como de um acidente vascular cerebral (AVC), que não podem esperar - afirma ele, que trabalha em uma UPA da Zona Oeste.

Mas um simples agradecimento de quem volta à unidade ao "doutor" é motivação para seguir em frente:

 - Eu amo o que faço. Às vezes, algum paciente que foi atendido pela equipe da UPA volta e agradece, conta que foi operado, que se recuperou e que está bem. Isso traz alegria e satisfação - afirma.

O dia 18 de outubro foi escolhido para a celebração em homenagem a São Lucas. Um dos quatro evangelistas do Novo Testamento, Lucas foi um médico grego que viveu na cidade de Antioquia, na Síria Antiga. Historiadores afirmam que Lucas cumpriu a missão até seus 84 anos, terminando sua vida com o martírio - tormento sofrido por causa da fé.

O Conselho Regional de Medicina do Rio parabenizou todos "os que lutam por uma assistência de qualidade para a população, mesmo diante das adversidades".