Na Mídia - Faltam 77 Médicos na Emergência

O Dia /

03/07/2019


Devido à carência de médicos e enfermeiros, o CTI da emergência foi lacrado ontem e não receberá mais pacientes. Dez foram transferidos para outros setores
Sem médicos, a emergência do Hospital Federal de Bonsucesso (HFB) só atende quem chega com risco de morte. É o que mostra relatório produzido por funcionários da unidade, entregue à Direção Geral do HEB, este mês. O DIA teve acesso ao documento, que aponta um déficit total de 77 médicos na emergência, quando deveria ter 124. Ou seja, 0 à unidade funciona com 38% do efetivo. As especialidades com maior carência são as de médicos clínicos, onde faltam 27 profissionais, e pediatras, menos 25. O relatório ainda contabiliza déficit nas áreas de cirurgia geral, faltam 14; e plantão geral, menos 11.

O documento é de 11 de junho e, segundo funcionários ouvidos pela reportagem, permanece atual. Diante do quadro, a emergência do HFB tem funcionado com uma média de dois médicos por dia para atender a uma demanda de cerca 50atendimentos diários e uma média de 70 internações na emergência. De acordo com quem atua no local, é comum não aparecer ninguém para trabalhar.

'Como a maioria dos médicos cumpre contrato temporário, não há vínculo como hospital. O alto nível de estresse causado pela sobrecarga de trabalho, aliado ao baixo salário, provoca a desistência por parte desses profissionais', contou um funcionário que não quis se identificar.

Foi o que aconteceu no último fim de semana, quando a emergência ficou fechada após o pedido de demissão de dois médicos que davam plantão aos sábados e domingos. 'Outros dois pediram demissão na mesma semana, mas a gestão da emergência conseguiu reverter e eles continuarão atuando. Mas não sabemos até quando. A situação é extremamente precária' disse um funcionário.

Na madrugada de ontem, o aposentado Antonio Pádua Duarte, de 64 anos, que estava internado na emergência do HFB desde o dia 5 de junho, com um tumor na barriga, morreu. Segundo familiares, o estado de saúde de Antonio se agravou e não havia médico para atendê-lo.

'Só ontem (segunda-feira) apareceu uma médica, que transferiu meu irmão para a sala vermelha. Mas já era tarde demais. É um descaso total com a vida das pessoas' disse a dona de casa Alzira Duarte, de 53 anos, irmã da vítima.

O cozinheiro Jones Felix, de 35 anos, vinha de Belford Roxo com a mãe Iracema de Souza, 56 anos, para uma consulta de pós-operatório em outra unidade. No ônibus, ela desmaiou e ele buscou atendimento no HFB. Mas a resposta foi a mesma: não havia médico. 'Pediu ma ambulância. Mas nem isso consegui. Vou ter que pagar um Uber para levá-la a outro hospital' disse Jones Felix.

Na tarde de ontem, a direção do hospital decidiu fechar o CTI da emergência amarela devido à falta de médicos. No setor, havia dez pacientes internados que foram transferidos para outros setores de tratamento intensivo do hospital.

Pela manhã, quem procurou a emergência tinha atendimento negado. Foi o que aconteceu com a cozinheira Ana Cláudia Cosme, de 53 anos, que procurava pediatra para a neta, de 1 ano e 9 meses. As duas eram acompanhadas pela mãe da criança, que estava numa cadeira de rodas devido a uma lesão no pé esquerdo. Não havia especialista e elas foram barradas na porta. 

'Minha neta está com uma irritação séria na pele e precisamos saber se ela tem alguma bactéria. Mas não há pediatra. Este governo precisa ter consciência do que estamos passando. A saúde pública está uma vergonha', desabafou.

MS admite precariedade

O Ministério da Saúde informa que o Hospital Federal de Bonsucesso está tomando as providências cabíveis para recompor a equipe médica da Emergência, que atualmente realiza atendimentos comum quadro de 17 clínicos, 4 pediatras, 16 cirurgiões e16 ortopedistas. De acordo coma direção do Hospital Federal de Bonsucesso (HFB), nenhum paciente internado na Emergência está sem assistência médica. O MS informa que permanece aberta para renovação de Contratos Temporários da União (CTU). A avalia tecnicamente novos modelos de contratação.

Menos 4200 médicos na rede federal

A Defensoria Pública da União (DPU) entrou com uma representação na 5º Vara Federal do Rio de Janeiro, no dia 4 de junho, contra o descumprimento, pelo governo federal, da liminar que obriga o Ministério da Saúde a contratar 4.200 médicos e 1884 profissionais de enfermagem para seis hospitais do Rio - entre elas o Hospital de Bonsucesso - e três institutos.

A DPU, o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj) e o Conselho Regional de Enfermagem do Rio de Janeiro (Coren) entraram com denúncia contra o Ministério da Saúde e a União Federal no Tribunal Regional Federal da 2º Região,em 2017, cobrando a renovação dos contratos temporários. A Justiça concedeu liminar. Mas ela não foi cumprida.