Médicos iniciam movimento contra perigosa doença

23/12/2015


Dermatologistas e infectologistas do Rio de Janeiro iniciaram um movimento de divulgação sobre o atual quadro da paracoccidioidomicose (PCM), suas consequências e as dificuldades relacionadas ao diagnóstico, comunicação da doença e acesso ao tratamento. Apoiados pelo CREMERJ e pela Associação Médica do Estado do Rio de Janeiro (Somerj), eles têm realizado palestras e pedido auxílio das entidades para sensibilizar as autoridades a adotar medidas que permitam equacionar essa situação na saúde pública.

A PCM é uma micose sistêmica, de caráter endêmico, exclusiva da América Latina, sendo que o Brasil detém 80% dos casos da doença. O Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), da Fiocruz, no Rio de Janeiro, é o segundo do Brasil em volume de atendimentos e internações por PCM. Em primeiro lugar está o Instituto de Doenças Tropicais Natan Portela, no Piauí. As maiores incidências estão no Sudeste, Sul e Centro Oeste. O Vale do Paraíba, por exemplo, está entre as regiões hiperendêmicas do país.

Conforme estudo realizado, dentre os pacientes com PCM que informaram sua ocupação, mais de 50% são trabalhadores rurais. Os demais são pedreiros (muitos ex-trabalhadores rurais), jardineiros e pessoas que trabalham revolvendo a terra. Em muitos casos, a contaminação pode ocorrer no campo antes de os pacientes se mudarem para centros urbanos.

A doença é causada por fungos do “complexo” Paracoccidioides brasiliensis, que vivem no solo das plantações em geral, em tocas de animais etc. Ao trabalhar na lavoura, a pessoa pode inalar o fungo junto com a poeira do solo. Vale assinalar que a PCM não é contagiosa, não passa de uma pessoa para a outra e não é transmitida por alimentos ou objetos de uso pessoal, como talhares.

Também chamada de paracoco e Doença do Capim, a PCM é a micose com a maior taxa de mortalidade e de internação entre as micoses sistêmicas e encontra-se entre as dez principais causas de morte por doenças infecciosas e parasitárias, crônicas e recorrentes.

Em agosto, a Somerj realizou um evento no qual os dermatologistas e pesquisadores da Fiocruz Antonio Carlos Francesconi e Ziadir Coutinho proferiram palestra sobre a questão. Unidos ao professor e pesquisador Bodo Wanke e outros médicos, também da Fiocruz, formataram em outubro uma documentação para encaminhar às autoridades com vários pleitos voltados ao aprimoramento do atendimento, diagnóstico e tratamento da enfermidade. "A PCM é uma doença que precisa de pessoal treinado para a identificação do fungo. Na rede básica de saúde, os profissionais geralmente não estão suficientemente sensibilizados para a suspeição de doença fúngica. Além disso, há deficiência na disponibilidade de meios diagnósticos e grande parte dos municípios e serviços de saúde não têm nenhum recurso diagnóstico", destaca Antonio Carlos Francesconi.

Segundo Bodo Wanke, o movimento pretende mais do que colaborar para que o SUS disponibilize os remédios, incluindo-os na lista dos medicamentos essenciais, para uso em longo prazo, conforme protocolo. "O tratamento da PCM precisa ser disponibilizado e universalizado o mais brevemente possível, com drogas eficientes. Também é fundamental que seja estabelecido um Programa de Micoses Sistêmicas na rede pública de saúde, com serviços de referência e protocolo clínico específico para cada micose", sugere.

A lista de pleitos inclui ainda a disponibilização de um kit para diagnóstico do comprometimento das glândulas adrenais, que permite detectar a insuficiência adrenal em vida e tratar o paciente com reposição hormonal. Francesconi destaca que o comprometimento da glândula supra renal pode ser fatal. Ele defende ainda a importância da utilização de antifúngicos potentes, que abreviam o tratamento. "Geralmente os pacientes com PCM são pobres e residem afastados dos grandes centros urbanos, o que favorece o abandono do tratamento. Em casos de recidiva, a pessoa apresenta formas mais graves, que deixam sequelas", salienta.  

Capacitação profissional – Outra preocupação é a capacitação dos profissionais para o atendimento. "O governo precisa estabelecer um programa de educação continuada voltada para o manejo clínico, epidemiológico e laboratorial das micoses sistêmicas, em especial a PCM, dirigido para médicos de família e clínicos, especialidades estratégicas para as doenças fúngicas", acrescenta Wanke.

Segundo Coutinho, o coeficiente médio de mortalidade por PCM no Rio de Janeiro é abaixo de um por milhão de habitantes, mas é perene. Há mais de seis décadas, funciona um ambulatório no INI, na Fiocruz, que é referência no atendimento da doença. A média nacional de mortalidade é de um por milhão de habitantes, mas os maiores índices encontram-se em Rondônia (6,5), Mato Grosso (5,0) e Acre (3,4).

Francesconi chama atenção para o fato de a paracoccidioidomicose ter cura quando há tratamento regular e adequado. O que dificulta, diz, é o diagnóstico tardio, muitas vezes com o paciente já irrecuperável. "Temos aqui no INI índices de cura no patamar de 85% em  pacientes  adultos com a forma crônica da doença. Contribui muito para isso o fato de termos ambulatório específico, estarmos de portas abertas para os que interrompem o tratamento e voltam e também o fato de fornecermos os remédios, o que não acontece em todos os lugares", afirma.

Ainda segundo ele, a instituição atende, em média, 25 casos novos por ano, mas semanalmente o ambulatório da Fiocruz atende cerca de dez pacientes.

Dificuldades para diagnóstico – A dificuldade de se obter o diagnóstico correto da doença é um grande obstáculo a ser vencido. "A paracoco pode se manifestar de várias maneiras e todos os profissionais de medicina devem conhecer a doença", afirma Coutinho, acrescentando que o principal sintoma da enfermidade crônica em adulto é pulmonar e que na maioria das  vezes ela é confundida com tuberculose.

A chefe do Laboratório de Micologia do INI, Márcia Lazera, igualmente defende  diagnósticos mais precoces e adequados à detecção da PCM, para melhorar os tratamentos e evitar cirurgias de doenças inexistentes e óbitos.

"Ao invés de ir direto para a cirurgia em caso de lesão pulmonar, por exemplo, deveria ser usada a sorologia de triagem, a imunodifusão, que orienta o diagnóstico", ressalta.

A expectativa dos especialistas com relação ao CREMERJ e à Somerj vai além do auxílio para que os médicos reconheçam a doença. "É preciso que o movimento chegue às autoridades, para que se assegure que as unidades estejam equipadas, tenham medicamentos para tratar os pacientes e condições de diagnosticá-los. Além disso, é fundamental que se façam ações junto às entidades que representam as populações rurais, que são as maiores vítimas da doença. E isso também tem de ser levado às residências médicas", frisou Francesconi.

As diretorias do CREMERJ e da Somerj se comprometeram a cobrar das autoridades as providências necessárias para efetivar o pleiteado pelos colegas. "O movimento dos colegas infectologistas e dermatologistas é muito justo e importante. Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para que seja garantido à população o acesso ao diagnóstico e ao tratamento da doença", afirmou o presidente do Conselho, Pablo Vazquez.

 

Distribuição dos óbitos de PCM, segundo grupos de ocupações. Brasil, 1980 a 1995

 

 

 

Fonte: Coutinho ZF; Silva Dd; Lazera M; Petri V; Oliveira RM; Sabroza PC; Wanke B.  Paracoccidioidomycosis mortality in Brazil (1980-1995). Cad Saude Publica; 18(5): 1441-54, 2002 Sep-Oct.

 

Distribuição das internações por PCM, segundo hospitais com maior número de internações


 

Fonte: COUTINHO, Z. F. Morbimortalidade por paracoccidioidomicose no Brasil (1998-2006). Rio de Janeiro. Tese de Doutorado – Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arauoca/Fundação Oswaldo Cruz; Saúde Pública, 2011.