CREMERJ participa de evento dos ex-alunos da Uerj

30/10/2015


O auditório Ney Palmeiro, no Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe), foi palco do I Encontro da Associação dos Ex-Alunos da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. O evento, realizado nessa quinta-feira, 22, foi marcado por muitos reencontros, debates e lembranças de momentos históricos que marcaram a luta dos movimentos estudantis na época da ditadura militar. 

O presidente do CREMERJ, Pablo Vazquez, participou da mesa de abertura ao lado do presidente da Alumni da Faculdade de Ciências Médicas (FCM-Uerj), Walter Gouvea, da diretora da FCM-Uerj, Albanita de Oliveira, do diretor do Hupe, Rodolfo Nunes, e da diretora-presidente do Centro Acadêmico Sir Alexander Fleming (Casaf), a acadêmica Bruna Trajano. 

Vazquez ressaltou a importância da Uerj na formação de médicos não só para o Rio de Janeiro, mas para todo o Brasil, e destacou a sua tradição em estar sempre aberta ao debate para aprimorar o sistema de saúde e de ensino do país. “A Faculdade de Ciências Médicas tem como característica trazer à tona questões fundamentais para o bom desempenho da medicina, tratando não apenas de assuntos técnicos do dia a dia do trabalho, mas também de questões éticas e morais”, afirmou. 

Ele falou, ainda, sobre a importância da troca de experiências entre os colegas e sobre a valorização da história de pessoas que lutaram em busca de boas condições de trabalho e de um país melhor. Vazquez lembrou a matéria que o Jornal do CREMERJ fez, em 2008, sobre o assassinato do aluno Luiz Paulo da Cruz Nunes, durante uma manifestação estudantil em frente à faculdade. “Acredito que fatos marcantes devam ser contados para que os jovens, que não viveram num governo ditatorial, conheçam a história do nosso país e valorizem aqueles que lutaram a favor do Brasil. Se não relembrarmos esses momentos, corremos o risco de permitir que aquelas condições se repitam”, alertou. 

“Este I Encontro da Associação dos Ex-Alunos da Faculdade de Ciências Médicas da Uerj vai resgatar e discutir momentos históricos para a rica história da universidade e das contribuições que ela sempre deu não só para a formação médica, mas também para a construção da nossa sociedade e o aprofundamento da democracia”, finalizou Vazquez.

O presidente da Alumni FCM–Uerj, Walter Gouvea, listou os três princípios básicos da organização: preservar a história e os valores da faculdade, a biografia dos ex-alunos e ajudar a criar uma rede de relacionamentos intergeracional para fomentar discussões e trocas de experiências. Ele ressaltou que a programação do evento foi planejada levando em consideração essas diretrizes.

Após a cerimônia de abertura, o professor Moyses Szklo ministrou a conferência magna “Epidemiologia Translacional: Uma Ferramenta na Área da Saúde”, em que explicou sobre o processo que culmina na aplicação das ferramentas da epidemiologia para a produção de evidências científicas relevantes à saúde pública, voltadas ao planejamento de políticas, programas e ações na área.

Em seguida, foi iniciada a parte histórica da programação, quando o ex-aluno Fernando Pinto Bravo, relembrou as manifestações na época da ditadura militar e a trágica morte do então aluno Luiz Paulo da Cruz Nunes, no dia 22 de outubro de 1968. A conselheira do CREMERJ Márcia Rosa de Araujo foi a moderadora da mesa-redonda “Título Provisório – Movimento Estudantil nas Ciências Médicas”, que contou com a participação do autor do livro de mesmo nome, Fábio Daflon, do presidente do Casaf entre 1965 e 1966, Luiz Tenório, e do presidente do centro acadêmico entre 1968 e 1969, João Lopes Salgado.

Tenório contou fatos que marcaram o movimento estudantil entre 1963 e 1968 e lembrou momentos de descontração que passou dentro da faculdade, como jogos de futebol, bailes e outros encontros sociais, além de destacar que a FCM-Uerj foi a primeira faculdade de medicina a abolir o trote, dando lugar ao chamado trote solidário, em que os alunos doam sangue ao iniciar o curso. 

Ele falou também sobre o fechamento do centro acadêmico na época e relatou como foi o Dia do Protesto, em 22 de outubro de 1968, quando Luiz Paulo morreu com um tiro na cabeça durante passeata em frente ao Hupe. O estudante chegou a ser operado no próprio hospital onde ele era estagiário pelo professor Pedro Sampaio, paraninfo da turma de 1972, que teve a sua formatura suspensa pela censura, mas não resistiu. “Nós achávamos que íamos fazer uma revolução por meio do movimento. Podia até ser utopia, mas posso dizer que essas lutas enriqueceram muito a todos nós, tanto profissional quanto pessoalmente”, disse Tenório com orgulho.

Autor do livro “Título Provisório”, Fábio Daflon fez um panorama sobre a história da Faculdade de Ciências Médicas da Uerj e destacou a época da sua fundação e o pós 70, deixando os anos 60 para Salgado e Tenório. Já João Lopes Salgado reforçou a importância da conscientização política para os estudantes da época e também para a universidade de uma forma geral. “Com certeza, a luta nos ajudou a desenvolvermos uma faculdade mais humanista. Acredito que formamos médicos e professores mais justos e solidários”, afirmou.

Márcia Rosa de Araujo encerrou a mesa-redonda abrindo para perguntas e comentários dos presentes. Ela aproveitou para destacar a qualidade na formação acadêmica em vários setores. “A Uerj é uma instituição que forma lideranças em diferentes áreas da sociedade, isso é um motivo de orgulho para todos nós. As experiências que tive aqui foram fundamentais para eu me tornar a primeira mulher presidente do CREMERJ. Foi nesta universidade que eu aprendi a lutar pela categoria médica, iniciando o movimento de residentes em 1978”, ressaltou. 

A programação do I Encontro da Associação dos Ex-Alunos da Faculdade de Ciências Médicas da Uerj contou, ainda, com a conferência “Hospital Pedro Ernesto – Fundação, Evolução e Transformação em Instituição de Ensino”, com a mesa-redonda “A implantação dos Serviços de Cirurgia do Hospital Universitário Pedro Ernesto – Recortes Históricos e Biográficos” e com uma solenidade de entrega da Comenda D. João – Príncipe da Educação Médica do Brasil a quatro colegas: Edna Cunha, Fernando Alvariz, José Cavaliere Sampaio e Hésio Cordeiro.

O conselheiro do CREMERJ Renato Graça, ex-aluno da universidade, também participou do evento e lembrou a situação em que foi preso durante a manifestação de 22 de outubro de 1968 . Nesse dia, carregava no bolso nomes de autores de livros de medicina e seus respectivos preços. Na ocasião, a polícia considerou a lista suspeita porque os nomes e os números podiam ser algum código secreto.