Em artigo, presidente do CRM fala sobre o Salgado Filho

17/02/2014


O jornal O Globo publicou nessa quinta-feira, 13, artigo do presidente do CREMERJ, Sidnei Ferreira, sobre a situação caótica do Hospital Salgado Filho.

 

Hospital em grave crise

Sidnei Ferreira

O Hospital Municipal Salgado Filho caminha a passos largos para as páginas policiais. Há muito tempo, centenas de pessoas são atendidas diariamente nesta unidade por médicos, funcionarios e outros profissionais da saúde que teimam em não aceitar o descaso, a incompetência e a irresponsabilidade do poder público. Com um clínico de plantão em alguns dias, dois ou três em outros, o Salgado Filho está longe do número ideal para satisfazer, com responsabilidade e segurança, o atendimento aos pacientes.

À demanda espontânea da população, somam-se os casos levados pelo Samu e pelos Bombeiros, além de transferências pelo Sistema de Regulação. Faltam neurocirurgiões, pediatras e outros especialistas, presenças fundamentais para o atendimento dos casos graves. A espera é grande, levando ao sofrimento e desespero doentes e familiares. Os relatos impressionam, como o de pacientes que ficam uma semana dentro do centro cirúrgico ou daqueles levados para a sala vermelha da emergência por não haver vaga no CTI.

Além da falta de plantonistas, a enfermaria conta com apenas dois clínicos para 36 pacientes internados, o que não permite evoluções diárias, bom tratamento e posterior alta. Na emergência, há uma média de 60 pacientes para somente um clínico, que, obviamente, não consegue acompanhá-los ou atender adequadamente aos que chegam.

Também ficam em uma mesma sala doentes da emergência vindos do centro cirúrgico, da rua, das ambulâncias e da regulação; mesmo não havendo UTI pediátrica no hospital, a regulação continua  enviando crianças em estado grave.

Tudo isso, mais a permanência além do tempo necessário, gera superlotação, aumento do risco de complicações, infecção hospitalar, óbitos, estresse na equipe, nos pacientes e em seus familiares. Gera também dificuldades para realizar atos simples como limpeza do local, higiene do paciente e manutenção da sua individualidade e autoestima. As equipes estão desmotivadas, cansadas, sem esperança, com medo das implicações legais e consequências que podem advir do trabalho em condições tão precárias e indignas. A população, os médicos e a saúde pública não merecem tal descaso, incompetência e falta de vontade política para resolver o problema.

O CREMERJ se reuniu com o secretario municipal de Saúde e ofereceu ajuda. Encontrou-se com o corpo clínico do hospital. Retornou ao secretário com as sugestões para solução imediata e a médio prazo. Nada foi feito. Apresentamos o problema ao Ministério Público Estadual, entramos com ação no Judiciário e denunciamos â imprensa.

O que esperar de um gestor que mantém pacientes graves amontoados, espalhados pelo chão, em bancadas, junto a latas de lixo, sem a mínima dignidade, fazendo o mesmo com aqueles que lutam para salvar vidas? O que esperar desse hospital essencial para a população? Quem lá trabalha não quer seu fechamento, assim como os que lá são atendidos. O que se quer é o seu funcionamento pleno, em condições dignas de atender o cidadão, que tem e exige esse direito e respeito.

*Sidnei Ferreira é presidente do CREMERJ