Clipping - Hospitais federais do Rio precisam de 25 milhões de equipamentos de proteção, como máscaras e luvas, e não encontram par

O Globo Online /

03/04/2020


Em ofício ao Ministério da Economia, superintendência do Ministério da Saúde pede socorro e aponta situação 'extremamente preocupante' com 'preços ultra abusivos'

BRASÍLIA - Os hospitais federais do Rio estão encontrando dificuldades para comprar equipamentos de proteção individual (EPIs) básicos para a atuação dos profissionais de saúde, como álcool em gel, máscaras, aventais, luvas, seringas e cânulas de traqueostomia, uma situação classificada como "extremamente preocupante" pelo representante do Ministério da Saúde no Rio, em ofício protocolado no Ministério da Economia nesta sexta-feira. São necessários, para o funcionamento de todos esses hospitais durante a pandemia do novo coronavírus, 2,5 milhões de máscaras, 2,5 milhões de pares de luva e 2 milhões de toucas, equipamentos cada vez mais raros no mercado.

No documento enviado ao Ministério da Economia, o superintendente da pasta, Jonas Roza, anexou uma planilha com todos os EPIs necessários para o funcionamento de seis hospitais federais, do Instituto Nacional de Câncer (Inca) e do Instituto Nacional de Traumatologia (Into) durante a pandemia do novo coronavírus. São, ao todo, 25,5 milhões de 98 itens distintos, necessários para um período de seis meses.

Empresas fornecedoras já habilitadas em atas de registro de preços vêm informando aos hospitais que não têm material para entrega nem possibilidade de encontrar novos fornecedores para atuar em processos emergenciais, conforme o ofício do Ministério da Saúde. Quando existem os fornecedores, "os preços são ultra abusivos", cita o documento.

"Tal fato é extremamente preocupante, uma vez que, além de o Hospital Federal de Bonsucesso ser o hospital federal de referência no atendimento ao Covid-19, toda a rede federal precisa estar abastecida de EPIs para que possa atender de forma segura a toda população, bem como proteger os profissionais de saúde que são peça fundamental nesse combate ao vírus", cita o ofício. O superintendente do Ministério da Saúde pede autorização para que as unidades federais de saúde e a superintendência local possam participar de processos de aquisições conduzidos pela Central de Compras do Ministério da Economia.

"Estamos cientes de que o Departamento de Logística em Saúde está para realizar nova aquisição de insumos, voltados para toda rede municipal, estadual e federal de saúde, embora o quantitativo a ser destinado aos hospitais federais possa não refletir as necessidades destes, face às dificuldades encontradas por todos os órgãos nos processos de aquisição", cita o ofício. O documento afirma que o Ministério da Economia está concentrando demandas por EPIs de combate ao Covid-19.

Na quinta-feira, o Ministério da Saúde confirmou que zerou o seu estoque de EPIs. A China, principal fabricante de equipamentos, passou a ser alvo de uma corrida de diversos países pelos produtos, em especial os Estados Unidos, que enviaram aviões para buscar material. A iniciativa norte-americana interferiu em pedidos feitos pelo governo brasileiro, segundo informação do próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

O Hospital Federal de Bonsucesso é o que mais precisa de EPIs para lidar com a pandemia: são necessários 6,7 milhões de itens, conforme os dados repassados ao Ministério da Economia. Depois aparecem o Hospital Federal dos Servidores do Estado, com 4,2 milhões de itens; o Hospital Federal do Andaraí, com 3,6 milhões; o Hospital Federal da Lagoa e o Inca, com 3,1 milhões cada; e o Hospital Federal Cardoso Fontes, com 3 milhões.

Todas as oito unidades hospitalares precisaram de 70,4 mil recipientes de álcool em gel, de 12,2 milhões de seringas, de 1,1 mil termômetros e de 14,7 mil cânulas de traqueostomia. Diante da gravidade do problema, foi formado um grupo de servidores da área de licitações, para se discutir formas de compra desses EPIs. Uma solução encontrada foi pedir ajuda à Central de Compras do Ministério da Economia.

A partir desta conclusão, e da elaboração de uma planilha, o representante do Ministério da Saúde enviou o ofício com pedido de socorro ao Ministério da Economia. "Todos os itens listados são considerados importantes no enfrentamento da pandemia, seja em casos mais leves ou mais graves da doença", cita o superintendente Roza no ofício.

Diante da dificuldade de se abastecer os hospitais com equipamentos básicos, num momento em que se avizinham "semanas duras", segundo as palavras do ministro da Saúde, começam a surgir cobranças pela reversão industrial, quando indústrias de diferentes ramos passam a fabricar os produtos hospitalares necessários. Nesta sexta, o Ministério Público (MP) de São Paulo expediu recomendação ao governo do estado e à prefeitura da capital para que determinem, em 72 horas, a "reversão imediata da produção da indústria". O MP quer que as indústrias produzam EPIs, respiradores, insumos e matérias-primas para testes do novo coronavírus.