Clipping - Coronavírus: médicos temem pandemia nos asilos brasileiros

O Globo Online /

24/03/2020


Sociedade de geriatria listou uma série de orientações para a prevenção, como a criação de áreas de isolamento, ventilação natural nos ambientes e suspensão de visitas às instituições

RIO - A pandemia do coronavírus é severa nas casas de repouso para idosos europeus. Na Espanha, de acordo com 'El País', em reportagem divulgada na quinta-feira, o surto atingiu asilos em cidades como Barcelona, Valência, Alicante, Ciudad Real e Vitória, deixando pelo menos 90 mortos.

Trabalhadores e famílias de idosos espanhóis denunciaram que a falta de equipamentos de proteção e o atraso nos testes de detecção transformaram estes centros, chamados no Brasil de Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), em bombas-relógio para a transmissão do vírus e o colapso dos hospitais.

O médico Salo Buksman, coordenador da Câmara Técnica de Geriatria do Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj), o Brasil 'com toda a certeza' será impactado pelo mesmo problema:

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- Na verdade, pior, pois os deslocamentos, a exposição e as condições de higiene onde moram os funcionários destas unidades impõem riscos de contaminação maiores. Muitos são clandestinos, não registrados, verdadeiros depósitos humanos - alertou.

O maior risco, explicou Salo, é o contato dos idosos com os funcionários das unidades. O médico disse que, como o número de empregados é geralmente pequeno, dificilmente faltarão ao trabalho. E, se faltarem, as condições de cuidado aos idosos serão ainda mais precárias.

Por esse motivo, ele alerta que os dirigentes de ILPIs precisam se movimentar rapidamente com aquisição de equipamentos de proteção individual para funcionários e criação de áreas para isolamento de pacientes positivos para Sars-CoV-2, o que ele acredita que só acontecerá se os órgãos fiscalizadores atuarem.

Os idosos de asilos estão em situação de maior vulnerabilidade porque são frágeis, com doenças em estágios avançados, contato próximo com outras pessoas (cuidadores e profissionais) e passam muito tempo em ambientes fechados e com indivíduos igualmente vulneráveis. Se os funcionários, principais vetores da transmissão, começarem a adoecer e tiverem de se isolar, muitos asilos não terão recursos para manter a operação e devem, em tese, encaminhar os idosos para os hospitais.

- O problema é que existe um grande número de instituições privadas, com controle muito precário. É improvável que os donos desses estabelecimentos estejam se movimentando para adquirir equipamentos ou criar áreas de isolamento - adverte Salo Buksman.

Normas para controle da doença

A comissão especial para a Covid-19 da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia baixou uma série de recomendações para a prevenção e o controle de infecções por coronavírus em ILPIs, que devem elaborar planos de ação e de vigilância adaptados às características de cada unidade, visando ao máximo evitar o surgimento de contaminação e surtos da doença.

Entre as orientações estão a criação de áreas para isolamento respiratório de residentes sintomáticos, ventilação natural nos ambientes e redução do uso de condicionadores de ar ao estritamente necessário e, especialmente, suspender visitas às instituições por tempo indeterminado.

Pelas recomendações da Sociedade, as ILPIs devem afastar imediatamente funcionários com sintomas respiratórios ou febre e restringir atividades em grupo e circulação nas áreas coletivas, incluindo os voluntários. Também estão sendo convocadas a fazer atividades de treinamento para educação em saúde para os profissionais da área de saúde sobre as medidas preventivas (higienização das mãos, uso de ácool gel) e utilização de equipamentos de proteção individual (EPIs) quando indicados.

O ideal seria apartar os casos suspeitos. Mas se, na rede privada de saúde, os idosos precisam esperar até 72 horas pelo resultado de exames, nos asilos o processo deve ser ainda mais longo, sem a certeza de que os casos suspeitos ficarão totalmente isolados, e não apenas um pouco mais distantes, do restante da comunidade.

Para especialistas, idoso deveria voltar temporariamente para a casa da família

O médico intensivista Roger Rohloff, integrante do Grupo de Trabalho do Ministério da Saúde sobre o vírus influenza (GT-Influenza), disse que, como em muitos casos os idosos hospedados nestas instituições foram levados para lá pelos parentes, por razões de caráter social, o ideal agora seria que as famílias os retirassem e os levassem de volta para a casa.

- Era melhor que o idoso ficasse isolado dentro da casa do seu parente. Com mais pessoas aglomeradas, é mais fácil o contato. Como afastar as pessoas que já foram afastadas de casa? É um tema muito delicado - disse Roger.

A sugestão é endossada pelo médico Renato Peixoto Veras, fundador da Universidade Aberta da Terceira Idade da Uerj:

- O asilo, com o envelhecimento, sempre foi visto como depósito. O grande problema na pandemia é que o asilo passou a ser um local que as pessoas estão muito desprotegidas. Os funcionários destas instituições moram longe, o contato e a possível transmissão é intensa. A ideia de retirar e levar para casa é muito boa.

No Brasil, não existe dado atualizado sobre o número de idosos em ILPIs. Há 18 anos, após promover uma caravana pelos abrigos do Brasil, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados estimou em torno de 19 mil idosos atendidos em instituições asilares.

'Dormem (os idosos) em quartos onde as camas quase se tocam, junto com outros idosos que jamais viram antes. Não possuem privacidade, nem contam com mobiliário próprio que lhes permitam guardar seus pertences e ter a eles acesso', registrou na época a comissão.

O Estado do Rio, de acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ), abriga 434 instituições para idosos, sendo 191 delas na capital. Na rede pública, a única instituição para idosos em situação de vulnerabilidade é o Abrigo do Cristo Redentor, que sozinho acolhe 219 hóspedes e já está tomando as providências necessárias e urgentes. Criado há 84 anos e localizado em Higienópolis, Zona Norte do Rio, o abrigo hospeda idosos, com idades de 60 a mais de 100 anos. Muitos foram abandonados, sofreram maus tratos ou tiveram outros direitos violados. Todos foram encaminhados para acolhimento no local pelo MP-RJ.

Nos EUA, portas de vidro

Nos lares de idosos americanos, os filhos adultos conversam com os pais através de portas de vidro trancadas, como visitantes da prisão. Eles temem que possa levar meses até que eles possam se abraçar novamente. Muitas famílias estão discutindo se devem ou não mudar seus entes queridos e cuidar deles em casa.

Milhares de lares de idosos e centros de vida assistida nos Estados Unidos estão se tornando ilhas de isolamento, à medida que os administradores de saúde tomam medidas sem precedentes para detê-los, na esperança de proteger alguns dos residentes mais vulneráveis do país da ameaça representada pelo coronavírus.

Na Espanha, o governo valenciano interveio essa semana em duas residências em Alcoi e Torrent depois de detectar mais de cem casos positivos de coronavírus e pelo menos duas mortes. O diretor geral de Saúde Pública de Castilla-La Mancha, Juan Camacho, relatou a morte de 14 idosos do centro privado Elder, em Tomelloso (Ciudad Real). Fontes do executivo regional apontam para possível negligência da administração.