Clipping - Câncer de pele matou mais de 30 mil no Brasil em dez anos

O Globo /

27/12/2019


Doença é responsável por 30% dos tumores malignos no Brasil

Levantamento da Sociedade Brasileira de Dermatologia mostra aumento de 48% nas mortes, de 2008 a 2017.

 

Dezembro, férias, praia, sol e um dado alarmante: 33.339 pessoas morreram no Brasil em uma década (2008-2017) em decorrência do câncer de pele, segundo dados da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) obtidos com exclusividade pelo GLOBO.

 

O levantamento mostra que o número de óbitos subiu 48% de 2008 para 2017. Hoje, o câncer de pele é o mais frequente e responde por 30% dos diagnósticos de tumores malignos no país.

 

De acordo com o Painel Oncologia, base de dados coordenada pelo Ministério da Saúde, São Paulo foi o estado brasileiro com o maior número de mortes em decorrência do câncer de pele nos últimos 10 anos, com 7.668 casos, seguido por Rio Grande do Sul, com 3.753, e Minas Gerais, com 2.822. Em quarto lugar, aparece o Paraná, com 2.800 casos. O Rio de Janeiro está em 5º, com 2.747 mortes.

 

Embora associado à exposição inadequada ao sol, dos 20 municípios que registraram o maior número de diagnósticos da doença entre 2013 e 2019, somente três estão no litoral brasileiro: Fortaleza, na 4ª posição; Salvador, na 10ª posição, e Natal, na 12ª posição.

 

Segundo o presidente da SBD, Sérgio Palma, o número é um alerta para que a população tome cuidados diários em relação à exposição aos raios ultravioletas, não apenas quando forem à praia ou à piscina durante o verão.

 

- A radiação ultravioleta está presente no país inteiro sempre. O Centro Oeste, por exemplo, tem uma radiação imensa, como não há em Recife. Temos no Brasil a cultura do bronzeado, e todo câncer de pele tem uma assinaturada radiação ultravioleta em sua essência. É preciso usar filtro solar, roupa adequada, óculos com foto proteção e evitar o sol em horários de pico.

 

Pessoas de pele clara, sensíveis à ação do sol e com histórico familiar deste câncer costumam ser as mais atingidas.

 

DOIS TIPOS DE TUMOR

 

Há dois principais tipos de câncer de pele: o mais frequente é o não melanoma que, apesar de maligno, tem grandes chances de cura se detectado precocemente. Quando diagnosticado ainda no início, ele pode ser tratado no próprio consultório do dermatologista,comum a pequena cirurgia.

 

O outro é o melanoma, que representa apenas 3% dos cânceres malignos da pele e é o mais grave, devido ao alto potencial de provocar metástase (a disseminação para outros órgãos).

 

No caso, a cirurgia é o tratamento mais indicado, mas radioterapia e quimioterapia também podem ser utilizadas dependendo do estágio.

 

Uma dentista moradora do Rio, que preferiu não se identificar, conta que conseguiu fazer o tratamento adequado de um caso mais simples da doença antes de ter grandes complicações.

 

- Fui fazer outros procedimentos na dermatologista e, em uma das rotinas, comentei sobre o nódulo no nariz.Passei por mais de três médicos e ninguém diagnosticava. Quando entenderam o que era, retirei uma parte no consultório, fiz biópsia e depois uma pequena cirurgia para retirar toda a área atingida pelo câncer - conta a dentista.

 

Depois do susto, afirma, o protetor solar tornou-se algo essencial em sua rotina.

 

- Até os 27 anos, tomava muito sol sem proteção. E o nariz é uma área que, mesmo não querendo, a gente acaba expondo. Hoje, o cuidado é redobrado.

 

Mal parecido acometeu recentemente o técnico Vanderlei Luxemburgo, que descobriu um câncer maligno em um sinal no nariz e também o eliminou em uma cirurgia simples, de raspagem.

 

EFEITO ACUMULATIVO

 

Mais de 77 mil pessoas foram diagnosticadas com tumores malignos de pele entre 2013 e 2019. Os idosos são os mais atingidos, com 67% do total.

 

- O efeito da radiação ultravioleta é acumulativo. Na prática, a luz ultravioleta atravessa a pele, chega nas células, lesiona o DNA e causa alterações que levam a um crescimento desordenado dessas células, o que dá origem ao câncer de pele -explica Sérgio Palma.

 

Para ajudar no diagnóstico precoce, explicam os especialistas, é necessário ficar de olho e procurar um médico se uma lesão na pele se enquadra nos chamados "critérios A, B, C, D e E".

 

O "A" está relacionado à assimetria da lesão. O "B", a bordas irregulares. Já o "C" é referente a cores difusas, e o "D", ao diâmetro, que deve ser superior a 6 milímetros.

 

Por último, deve-se levar em consideração o fator "E", referente à evolução do quadro, como casos em que a lesão se modifica ao longo do tempo.

 

- Costumo dizer que o melhor tratamento é o primeiro. É muito importante ter o diagnóstico correto e não fazer tratamentos paliativos. O câncer de pele é facilmente curado, a verdade é essa -- afirma Flávio Luz, diretor médico do Centro de Cirurgia da Pele e professor de dermatologia da Universidade Federal Fluminense (UFF).

 

Ele afirma que o carcinoma basocelular (um dos tipos mais comuns) tem 98% de chance de cura quando diagnosticado precocemente e tratado em centros de referência, e que, mesmo o tipo mais complicado, tem um índice de cura enorme.

 

Apesar do crescimento no número de diagnósticos e mortes em decorrência do câncer de pele no Brasil, especialistas acreditam que as pessoas ainda dão pouca importância aos cuidados com o maior órgão do corpo.

 

- Vejo muitos casos de pacientes que chegam com um câncer em estágio avançado porque não encontraram atendimento adequado. As pessoas não têm ideia da gravidade do câncer de pele. Se fizessem um exame dermatológico completo anualmente para identificar casos em estágio precoce, a mortalidade seria muito menor - alerta Jade Cury, coordenadora do Departamento de Oncologia Cutânea da SBD.

 

"Temos no Brasil a cultura do bronzeado, e todo câncer de pele tem uma assinatura da radiação ultravioleta em sua essência. É preciso usar filtro solar, roupa adequada, óculos com fotoproteção e evitar o sol em horários de pico", Sérgio Palma, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia

 

Prevenir, identificar e tratar

 -Quais são os tipos de câncer de pele?

 

Quase 90% dos casos existentes são de carcinomas. Esses tumores têm letalidade baixa, mas provocam cerca de 1.900 óbitos a cada ano no Brasil. Menos comum, o melanoma é o tipo mais agressivo, causando mais de 1.700 óbitos anualmente.

 

> O que aumenta os riscos? Exposição prolongada e repetida ao sol, principalmente na infância e adolescência. Ter pele e olhos claros, com cabelos ruivos ou loiros, ou ser albino. Quem tem histórico familiar de câncer de pele também corre mais risco. Pessoas que trabalham sob exposição direta ao sol são mais vulneráveis ao câncer de pele nãomelanoma. Outros fatores de risco incluem indivíduos com sistema imune debilitado e exposição à radiação artificial.

 

- Como prevenir?

 

É preciso evitar exposição prolongada ao sol entre 10h e 16h. Usar proteção adequada, como roupas, bonés ou chapéus de abas largas, óculos escuros com proteção UV, sombrinhas e barracas. Antes de se expor ao sol, aplique filtro solar com fator de proteção 15, no mínimo. Também é importante usar filtro solar labial.

 

- Quais os sintomas?

 

O câncer de pele não melanoma ocorre principalmente nas áreas do corpo mais expostas ao sol, como rosto, pescoço e orelhas. Geralmente se apresenta como manchas na pele que coçam, ardem, descamam ou sangram. É importante ter atenção com feridas que não cicatrizam em até quatro semanas. Qualquer nódulo, mancha vermelha, ferida que sangra ou forma crosta precisa ser observada. Diante de lesões suspeitas, procure um dermatologista o mais rápido possível.

 

- Como é feito o diagnóstico? Normalmente é feito pelo dermatologista, por meio de exame clínico. Em algumas situações, é necessário que o especialista utilize a dermatoscopia, exame com aparelho que permite visualizar algumas camadas da pele não visíveis a olho nu. Alguns casos exigem biópsia.

 

- Como é o tratamento? Depende do tipo de câncer. A cirurgia é o tratamento mais indicado para a maioria, eventualmente, associada à radioterapia. A lesão precursora do câncer e alguns tipos específicos da doença podem ser tratados com terapia fotodinâmica (uso de um creme fotossensível e posterior aplicação de uma fonte de luz). A criocirurgia e a imunoterapia tópica são também opções.