Clipping - Verba cortada do carnaval não é gasta em saúde e educação

O Globo / Rio

12/03/2019


Prefeito corta de carnaval, mas investimentos em saúde e educação caíram

 

O prefeito Crivella alega que redução da subvenção é para poder aplicarem saúde e educação,mas verbas dessas áreas despencaram este ano.

ara justificar a redução dos subsídios do carnaval — que este ano injetou R$ 3,78 bilhões na economia do Rio —, o prefeito Marcelo Crivella tem dito, em entrevistas e campanhas publicitárias, que os cortes são necessários para que seja possível aplicar mais recursos na saúde e na educação. Essa equação do governo, no entanto, não tem se refletido no orçamento. Enquanto a verba municipal repassada para a folia cai ano a ano — de R$ 70 milhões, em 2017, para R$ 30 milhões, em 2019 —, a população enfrenta a precariedade de hospitais e Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs). Na rede de ensino, além de falta de vagas em creches, a construção de escolas está parada, e metade das unidades precisa de reformas,

segundo vistorias por amostragem feitas pelo Tribunal de Contas do Município (TCM).

Os investimentos em infraestrutura de saúde caíram 60% nos últimos quatro anos. Em 2015, os gastos foram de R$ 78,7 milhões — 1,8% do total do orçamento do setor. No ano seguinte, houve uma alta e chegou R$ 157,8 milhões. Mas, em 2017, a prefeitura investiu apenas R$ 2,6 milhões e, no no passado, R$ 30,4 milhões. A previsão para este ano é de nova queda: R$ 19,7 milhões.

Na educação, os cortes em investimentos, também em infraestrutura, foram vertiginosos. Em 2015, foram gastos R$ 600,4 milhões — 9,1% do total do orçamento da pasta. Em 2016, ficaram em R$ 516,3 milhões. No ano seguinte, o primeiro da administração Crivella, despencaram para R$ 26,7

milhões. Em 2018, a prefeitura investiu R$ 55,1 milhões, mas, em 2019, prevê um cenário sombrio: R$ 24,5 milhões. Os valores estão atualizados pelo IPCA.

 

CAIXA FINANCIOU EDUCAÇÃO

Um detalhe chama a atenção quando se analisa os investimentos feitos pela prefeitura na educação, no ano passado. A maior parte dos recursos empregados em infraestrutura não veio de economia feita pelo governo, e sim das primeiras parcelas de um empréstimo de R$ 200 milhões que o município obteve da Caixa Econômica Federal. Dos R$ 55,1 milhões efetivamente pagos pelo governo em 2018, cerca de R$ 30 milhões (54,4% do total) tiveram como fonte o financiamento da Caixa, segundo divulgou a Secretaria municipal de Educação, em fevereiro.

O dinheiro foi empregado em obras, compra de mobiliário e climatização de parte das 292 escolas em que a prefeitura promete instalar ar-condicionado até o fim do governo.

Em sua estratégia para tentar convencer a população de que está no caminho certo, a prefeitura afirma que cortou dos desfiles para melhorar o lanche das crianças atendidas em creches. O primeiro corte na subvenção (de R$ 2 milhões para R$ 1 milhão por escola do Grupo Especial, em 2017) foi, segundo Crivella, para dobrar de R$ 300 para R$ 600 a ajuda de custo paga por aluno matriculado em creches conveniadas. A medida exigiria R$ 24 milhões a mais por ano — bem mais do que os R$ 13 milhões que deixaram de ser repassados para as agremiações.

— Os dados mostram que,

se a verba saiu do carnaval, para a educação não foi. Nos dois últimos anos de Eduardo Paes (2015-2016), foi investido R$ 1,1 bilhão. Nos dois primeiros anos do governo Crivella (2017-2018), o investimento foi de apenas R$ 81,8 milhões —criticou a vereadora Teresa Bergher (PSDB).

A prefeitura, por sua vez, diz que em dois anos climatizou 75 escolas e concluiu a reforma de duas unidades iniciadas na gestão passada, em Curicica e na Maré.

Na saúde, os R$ 33 milhões investidos nos dois últimos anos em melhorias tiveram uma ajuda extra. Em janeiro de 2018, Crivella anunciou a compra de nove tomógrafos e outros equipamentos, com a promessa de investir R$ 50,2 milhões. No entanto, a cidade, hoje, só dispõe de tomógrafos em operação nos hospitais Miguel Couto (Gávea) e Albert Schweitzer (Realengo).

Essa última unidade tem dois aparelhos, um deles comprado com recursos de emenda parlamentar do deputado Rodrigo Maia (DEM)

— O que observamos, nos últimos anos, foram cortes de custeio e investimento. Esse dinheiro que o prefeito tirou do carnaval, com certeza, não veio para os hospitais — disse o vereador Paulo Pinheiro (PSOL), que fez o levantamento sobre os investimentos do município em saúde.

A prefeitura alega que os equipamentos adquiridos dependem da conclusão de obras de adaptação. Em nota, também informou que o tomógrafo do Pedro II (Santra Cruz) entrará em funcionamento nos próximos dias. Ainda este mês, outro devera começar a operar no Salgado Filho. Em abril, serão ativados aparelhos novos no Miguel Couto e Lourenço Jorge, na Barra.

 

O Globo

Rio

Pág.09

 

Crivella diz que Witzel está mal informado sobre Sapucaí

Segundo ele, é possível negociar gestão de Sambódromo. Mas alega que, se estado pode cuidar do carnaval, também deve assumir saúde

 

O Sambódromo deixou a prefeitura e o estado em rota de colisão. O prefeito Marcelo Crivella afirmou ontem que Wilson Witzel está “mal informado” sobre o processo para transferir a gestão da Sapucaí para o governo. Hoje, a Passarela do Samba está cedida ao município em regime de comodato. Segundo Crivella, Witzel precisa “pedir” à prefeitura para reassumir o espaço.

—Podemos conversar, claro. O maior benefício do carnaval vai para o estado. Movimenta R$ 3 bilhões. E esses recursos estão na venda de bebidas, nos hotéis, nos meios de comunicação. Esses setores recolhem impostos para o estado. Venda de cerveja não paga IPTU ou ISS, paga ICMS, que é do estado —disse o prefeito.

Crivella não perdeu a oportunidade para alfinetar o governador ao dizer que o ex-juiz também poderia aceitar de volta os hospitais que foram municipalizados:

—Acho que o governador poderia assumir também o Rocha Faria, o Pedro II, o Albert Schweitzer, que a prefeitura pegou na época em que o estado estava quebrado. Já que pode cuidar do carnaval, cuide também dessa parte da saúde, que, cá para nós, é até mais importante do que o carnaval.

O Albert Schweitzer, em Realengo, e o Rocha Faria, em Campo Grande, foram transferidos para a prefeitura em janeiro de 2016, durante as gestões do então prefeito Eduardo Paes e do então governador Luiz Fernando Pezão. Já o Pedro II passou para o município no governo de Sérgio Cabral. Na época, o então governador anunciou a medida como uma “parceria” para que o município se tornasse o responsável pelo serviço de emergência na cidade.

Em resposta ao prefeito, o estado informou que os três hospitais mencionados são de urgência e emergência, atribuições da prefeitura. Durante o lançamento de um novo portal da prefeitura, Crivella voltou a afirmar que quer “desmamar” o carnaval.

—O carnaval é um patrimônio da cidade, mas isso não justifica receber R$ 70 milhões que eu tenho que colocar em creches, nos aposentados. Eles não podem ficar sem salário. Vamos fazer uma substituição de recursos, o que eu respeitosamente chamei de desmamar. Desmamar não é matar. A mãe mata quando desmama? Não.

 

O Globo

Rio

Pág.11

 

Em Cabo Frio, médico cobra por consulta em UPA

Em Nova Iguaçu, neuropediatra, que trabalha em centro de saúde há 20 anos, paga R$ 4 mil do próprio bolso para fazer obra de isolamento térmico em unidade pública e oferecer mais conforto aos pacientes, que sofriam com calor de até 43 graus

 

Eles se formaram na mesma faculdade —Medicina —e trabalham na rede pública de saúde. Mas, na hora de lidar com os pacientes, a distância entre os médicos Newman Nigro e João Alfredo Figueiredo é gigantesca. Enquanto o primeiro, neuropediatra, pagou do próprio bolso o rebaixamento do teto e a instalação de ventiladores no Centro Especializado de Saúde Paul Harris, na Posse, em Nova Iguaçu, Figueiredo foi demitido ontem de uma UPA de Cabo Frio, acusado de cobrar R$ 50 por atendimentos.

A história de Figueiredo veio à tona no sábado, quando um paciente, inconformado com o tratamento recebido, resolveu gravar a consulta. Nela, é possível ver o médico chamando o doente de burro. Após liberar o paciente, Figueiredo diz que pode ser procurado novamente, caso necessário. Ao ser perguntado se a consulta iria custar R$ 50, ele responde: “Não. Cinquenta reais é a consulta para o mês todo. É só o preço simbólico para esse cara não me encher o saco, o diretor do hospital”.

As cenas foram parar nas redes sociais e ontem, segundo o RJ-TV, Figueiredo foi demitido. O secretário de Saúde de Cabo Frio, Márcio Mureb, disse repudiar o episódio e não comentou a acusação do médico ao diretor.

Pacientes se disseram aliviados com a demissão. Em Nova Iguaçu, os doentes atendidos no Centro de Saúde Paul Harris também comemoraram. Mas por motivo bem diferente: a iniciativa do médico Newman, que trabalha no local há 20 anos e gastou do próprio bolso R$ 4 mil para rebaixar o teto, com isolamento de isopor. Com isso, foi possível reduzir o calor dentro da unidade, que chegava a 43 graus. O neuropediatra pagou pela mão de obra e por luminárias. O valor dos ventiladores foi dividido com outro médico.

A dona de casa Marilene Melo era só elogios:

—Como ótimo médico que é, ele não pensou só nele, e sim nos pacientes.