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Extra / Em Revista

10/03/2019


UMA CÓLICA INSUPORTÁVEL me acordou às 3h em 2016. Essas dores não eram novidade. Os últimos 30 dias haviam sido terríveis. Meu útero vinha me dando socos naquele ciclo menstrual. Na madrugada, joguei no Google algumas palavras-chave: “xixi ardência durante menstruação”. Os resultados indicavam o mesmo quadro clínico: endometriose, doença que faz com que partes do endométrio (camada interna do útero) se aloquem em outros órgãos, como ovários, intestinos e bexiga. Às sete da manhã, fui a um pronto-socorro ginecológico de São Paulo. Relatei como tinham sido meus últimos dias. A médica seguiu o protocolo: exame de gravidez e urina, ultrassom transvaginal e exame de toque — e se mostrou surpresa ao observar a menstruação. “Você não acha que pode ser endometriose?”, perguntei. Ela refletiu por dois segundos, concordou e solicitou outro exame, que confirmaria minhas suspeitas.

Mais de dois anos depois, a psiquiatra Izabel Rios, do Núcleo Técnico e Científico de Humanização do Hospital das Clínicas da USP, contorce o rosto ao ouvir a história que eu havia narrado: “Quem confia em um médico que o atendeu por cinco minutos?”, questiona Rios. “Há tanta gente sendo maltratada que isso joga contra a ideia do médico como profissional que o ampara”. Os médicos ainda são os profissionais mais respeitados. Em pesquisa do Datafolha, eles ocupam o topo do ranking entre os “profissionais mais confiáveis”. Mas 37% veem a saúde como o pior problema do país. E 65% classificam os serviços de saúde como ruins ou péssimos. As justificativas não recaem sobre os médicos. A maioria culpa o sistema: corrupção, falta de profissionais e de leitos nos hospitais.

Mas quase todo mundo tem uma experiência ruim com médico para contar. “A estrutura contribui para atendimentos mais humanizados. Mas há um aspecto que não depende do lugar: o desejo de ser médico e cuidar das pessoas”, diz Rios. Ao longo dos últimos dois séculos, a tecnologia progrediu, as guerras mundiais escancararam abusos médicos e os convênios e empresas farmacêuticas apareceram para intermediar a carreira dos profissionais da saúde. Como resultado, médicos e pacientes perderam contato — físico e emocional.

 

SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA

Quando se adoentava, um camponês do século 18 recebia em casa a visita do doutor, com uma mala, onde cabiam todos os seus equipamentos. Ele colocava o ouvido no peito do paciente para auscultar seu coração, avaliando o corpo em busca de sinais da doença e conversando sobre os sintomas. Sua presença já era um alento. Nem tudo era fácil, claro. Faltavam recursos e havia poucos remédios, assim como conhecimentos científicos; os diagnósticos eram um tiro no escuro. Tampouco existia anestesia: para aguentar a dor, a única saída era morder um pedaço de madeira e rezar.

Foi no século 19 que medicina e ciência se uniram para nunca mais se separar: as autópsias foram permitidas, abrindo conhecimento sobre cada órgão do corpo. Dali em diante, equipamentos foram desenvolvidos, causas de doenças foram descobertas, medicamentos foram criados. “Em vez de se perceberem como pessoas designadas para atender pessoas em sofrimento, os médicos começaram a pensar em si mesmos como cientistas”, escreve o psiquiatra Abraham Nussbaum.

A medicina tornou-se cada vez mais especializada. E os olhares profissionais deixaram de mirar o paciente para focar em telas e papéis. Outros fatores abalaram a confiança dos pacientes. Depois da Segunda Guerra Mundial, as atrocidades nazistas — como experiências com humanos nos campos de concentração — vieram à tona. Os médicos perderam parte da autonomia. “O médico não pode simplesmente amputar a perna de um paciente, como fazia. Ele precisa avisar sobre os riscos, explicar à pessoa por que é necessário fazer aquele procedimento — o paciente tem mais autonomia”, explica Rios. Por falar em autonomia, existe um mundo de conhecimento disponível na internet — e a palavra do médico no consultório deixou de ser única e definitiva.

 

DA GRADUAÇÃO AO HOSPITAL

Tanto conhecimento transformou as faculdades de Medicina. Professores travam uma busca insana para dar conta de absorver e repassar o maior número de informações sobre a arte de entender e curar cada órgão. As disciplinas dão ideia da priorização técnica do curso: biofísica médica, histologia, anatomia, parasitologia etc. A relação com o paciente fica de lado — resta apenas um pequeno espaço na carga horária para matérias sobre bioética e humanização.

Logo que entrou na faculdade, nos Estados Unidos, Abraham Nussbaum aprendeu a abrir corpos para estudá-los. Sua irmã fazia outro curso ligado à saúde: Enfermagem. Enquanto ele tinha aulas no necrotério, ainda na primeira semana de aula, ela aprendia como deixar a cama confortável para o paciente. “As diferenças entre as experiências de formação das nossas profissões ficaram bem claras”, conta o psiquiatra. Quando Nussbaum teve de confrontar a morte de uma paciente pela primeira vez, na graduação, não soube como lidar com a situação. Na emergência de um hospital, o jovem estudante se encarregou de acompanhar um atendimento. Era uma senhora de 65 anos, com histórico de diabetes e hipertensão. Apesar de todo o esforço da equipe, o coração da mulher sucumbiu após um infarto.

Na sala de espera, o filho em prantos ansiava por notícias. “Onde está minha mãe? O que aconteceu com ela? Onde está o médico?”, perguntou. Nussbaum só conseguiu balbuciar: “O coração dela parou... Ela morreu”. Aos gritos e desesperado, o rapaz devolveu: “Ela não é só ‘ela’. Ela é minha mamãe. Tem nome. O nome dela é Gloria! Gloria! O que vou fazer sem ela?”. Nussbaum se deu conta de que não sabia absolutamente nada sobre a mulher. E que não havia visto mulher alguma — atentara-se apenas para a doença: ataque cardíaco agudo.

Quando o ensino é voltado somente para a parte técnica, pacientes viram doenças. E o trato humano fica de lado. “É comum escutar coisas como ‘a minha paciente HIV’, ‘a minha paciente do câncer do endométrio’. Não são chamadas pelo nome, e sim pela doença. A história delas se perde”, destaca André Comiran Tonon, aluno do 6º ano de Medicina da UFRGS. “Fiz um curso técnico por seis anos. Busquei disciplinas extracurriculares voltadas para a questão humanística”, explica. “O corpo docente não valoriza, nem os alunos. Estão mais interessados em saber como costurar uma pessoa”, explica.

Não faltam cursos para formar médicos no Brasil. De 1980 a 2017, o número de profissionais triplicou. O boom aconteceu nos últimos anos, com a aprovação da lei Mais Médicos: desde a promulgação, em 2013, o número de faculdades de Medicina aumentou 30%, e o Brasil passou a ter potencial de formar quase 30 mil médicos anualmente — o dobro de cinco anos atrás. Seria algo positivo, não fosse pela qualidade de alguns programas de graduação. Todo ano, o Cremesp aplica provas para recém-formados, com 120 questões. E há dez anos a maioria não consegue acertar nem metade. Não à toa, o Ministério da Educação quer proibir a abertura de novos cursos. Para olhar o copo meio cheio, este ano, pela primeira vez na história, mais de 60% dos novos doutores de São Paulo conseguiram aprovação no exame.

NO PRÓXIMO DOMINGO: MEDICINA SOB PRESSÃO