Clipping - População do estado quer mais recursos na saúde

O Globo / Sociedade

04/02/2019


Autora de ‘Também humanos: a vida interior dos médicos’, britânica fala sobre como estresse e depressão afetam os profissionais da saúde

Por que seu livro é intitulado “Também humanos”?

Meu editor queria chamálo “Apenas humanos”, mas fui inflexível que ele deveria ser “Também humanos”. Escrevi um livro sobre a humanidade compartilhada de médicos e pacientes. Ambos são humanos! Frequentemente ouvimos como o sistema médico —tanto no Reino Unido quanto nos EUA — desumaniza os pacientes. Mas e quanto aos médicos? A medicina é uma profissão demandante para a mente, e perdemos isso de vista. Quando médicos vêm ao meu consultório, frequentemente é porque as pessoas em torno deles esqueceram que eles também são humanos. Dado o estresse de seu trabalho, eles muitas vezes não conseguem ser os médicos que gostariam de ser. Às vezes, eles dizem que gostariam de abandonar a profissão.

E quais são seus estresses?

Vejo muita ansiedade. Vejo médicos que frequentemente sentem que devem tomar decisões para as quais não foram treinados. Vejo médicos incapazes de ajudar em razão do grande número de doentes que têm que atender todos os dias.

Muitos de meus clientes são jovens. Sabemos que no Reino Unido e nos EUA há um alto nível de depressão nos primeiros anos de prática. Isso se reflete nos resultados para os pacientes. Médicos deprimidos cometem mais erros e têm pacientes menos satisfeitos. Médicos deprimidos têm pacientes menos inclinados a seguir as recomendações médicas. Meus clientes se preocupam que algo possa dar errado e eles sejam culpados. Eles têm pavor de serem processados.

A senhora cita médicos desencorajados pela má relação com seus pacientes. Isso é uma novidade?

A medicina é um mundo diferente desde o advento da internet. Os pacientes agora podem obter informações médicas por si próprios, e isso pode levar a muitos questionamentos sobre o que os médicos estão fazendo. Meus clientes dizem que alguns pacientes são demandantes demais e têm expectativas irreais sobre o que pode ser feito.

Atendi médicos que vieram me procurar por sofrer assédios no trabalho devido ao seu gênero ou etnia. Meus clientes mais velhos reclamam que seus colegas mais jovens desdenham de seu conhecimento.

E o que é capaz de fazer por eles?

A primeira coisa é determinar se sua infelicidade está relacionada com suas condições de trabalho ou algum problema psicológico não resolvido. Em cerca de seis sessões, talvez oito, tento ajudá-los a encontrar as menores mudanças para os maiores ganhos psicológicos. Abandonar a carreira médica é um passo drástico. Pergunto se podem usar seu treinamento de outra forma. Podem ir para a pesquisa ou gestão? Podem mudar para uma especialidade diferente? Se estão num ambiente tóxico, podem realizar um trabalho equivalente em outro lugar? Minha tarefa é descobrir o que está acontecendo e pensar nos tipos de mudanças disponíveis. Se o médico está extremamente deprimido e com ideias suicidas, o encaminho para um psiquiatra.

A senhora escreve sobre aconselhar médicos que estão incapacitados ou doentes. Quais são os problemas principais deles?

Bem, médicos supostamente não devem ficar doentes. Quando isso acontece, seus colegas saudáveis às vezes os põem de lado, pois não querem ser lembrados de suas próprias vulnerabilidades. Tive um cliente com uma incapacitação física que era muito bom no que fazia. Mas alguns de seus colegas o assediavam e faziam de sua vida no trabalho intolerável. Para ele, a solução foi encontrar outro hospital onde trabalhar. Tive outra cliente, uma obstetra, que queria ter filhos mas era infértil. Quando os tratamentos de fertilidade fracassaram, seus colegas minimizaram seu sofrimento e diziam que ela deveria “superar isso”, uma atitude que não teriam com suas próprias pacientes. Durante algum tempo, ela considerou abandonar a obstetrícia. Juntas, desenvolvemos uma estratégia: ela poderia atuar em medicina de emergência. Só saber que tinha um plano B fez ela continuar.

Como psicóloga que dá apoio a médicos, seu trabalho também pode te afetar?

Sim. Felizmente, os psicólogos britânicos têm supervisores. Ter alguém em quem confio e com quem conversar me ajudou. Exercícios ajudam também. Eu nado, mesmo no inverno. Não há nada como o choque da água fria para empurrar para fora o que quer que esteja passando pela cabeça.